Vanderley dos Santos Gomes foi condenado por estelionato. Segundo a Justiça, ele amputou o próprio pé para receber R$1,5 milhão Crédito: Reprodução
O que parecia o enredo de um filme de terror se confirmou como uma das fraudes mais frias e impressionantes da história jurídica brasileira. O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) manteve a condenação do servidor público Vanderley dos Santos Gomes pelo crime de estelionato. Sem possibilidade de novos recursos (trânsito em julgado), ele foi intimado para cumprir a pena de dois anos de reclusão por ter decepado o próprio pé direito na tentativa de forjar um assalto e receber indenizações milionárias.
O caso, ocorrido na região de Cruz das Almas e São Gonçalo dos Campos, é considerado inédito no país pelo nível de automutilação para fins de fraude.
Na madrugada de 10 de agosto de 2019, Vanderley — então com 26 anos e atuando como técnico-administrativo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) — alegou ter sido vítima de um crime brutal:
- O relato inicial: Ele afirmou ter sido abordado por dois homens armados em Cruz das Almas, colocado à força em um carro blindado, roubado em R$ 2 mil e levado de olhos vendados para uma área rural. Lá, os supostos criminosos teriam usado um facão para decepar seu pé.
- A descoberta do membro: O pé direito do servidor foi encontrado por policiais próximo à cancela de uma fazenda no Povoado de Mercês, em São Gonçalo dos Campos, onde ele foi socorrido.
Contudo, as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público (MP-BA) desmontaram a farsa ao identificar contradições severas no depoimento e uma impressionante coincidência financeira.
O plano começou a ruir quando analistas e investigadores mapearam o comportamento financeiro do servidor semanas antes do suposto crime. Em um intervalo de apenas 12 dias, Vanderley contratou quatro apólices de seguros de vida e acidentes pessoais com valores incompatíveis com o seu salário da época (de R$ 3,5 mil)
A soma dos valores que ele tentou abocanhar em caso de invalidez permanente chegava a R$ 1,5 milhão. Outro ponto que acendeu o alerta das seguradoras foi a pressa: o servidor deu entrada nos pedidos de indenização apenas cinco dias após ter o pé amputado.
“É um caso que chama muita atenção pela frieza. Uma fraude de veículo ou incêndio são mais comuns. Mas aqui estamos falando de uma lesão à própria pessoa, algo que deixará sequelas pelo resto da vida”, afirmou o advogado Adriano Scattini, cujo escritório representou as seguradoras e auxiliou a polícia a desmascarar o golpe.
Ao manter a condenação, a Justiça baiana destacou que a narrativa de Vanderley “contraria a lógica criminal comum”. O juiz de primeira instância, João Batista Bonfim Dantas, frisou que o réu não tinha inimigos e que não fazia sentido criminosos o levarem a outra cidade apenas para uma “amputação gratuita”.
Além disso, o Tribunal de Justiça apontou que:
- O réu lembrava minuciosamente dos detalhes dos contratos dos seguros, mas alegava “esquecimento” sobre as características dos agressores e a dinâmica da violência.
- Não houve nenhuma prova ou registro de que ele tenha desembarcado na rodoviária ou passado pela UPA de Cruz das Almas no dia do ocorrido, como havia sustentado.
À época dos fatos, Vanderley alegou que estava afastado de suas funções na UFRB devido a um diagnóstico de burnout. Apesar da condenação criminal definitiva por estelionato, o Portal da Transparência do Governo Federal mostra que o cadastro do servidor continua ativo na instituição, com remuneração líquida atual na casa dos R$ 5,4 mil. A universidade foi procurada, mas não se manifestou sobre o caso. Fonte: Correio 24hrs


