EUA e o fator Cazaquistão podem evitar guerra entre Rússia e Ucrânia? Entenda

Governo Vladimir Putin mostrou força no Cazaquistão e mantém ameaças à Ucrânia /Reuters

Conversas entre Casa Branca, Otan e o governo Putin são fundamentais para evitar conflito; EUA procuram Brasil antes de viagem de Bolsonaro a Moscou.

Em meio a uma semana de conversas entre o governo Vladimir Putin com os Estados Unidos e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), a tensão permanece na fronteira da Rússia com o leste da Ucrânia. O surgimento de uma crise no Cazaquistão e a possibilidade de algum tipo de acordo entre as potências, no entanto, reduziram a chance de o conflito escalar para uma guerra.

No fim do ano passado, a Rússia posicionou mais de 100 mil soldados na fronteira ucraniana, alegando que se tratava de uma movimentação militar normal das tropas dentro de seu território. A Ucrânia, com apoio dos Estados Unidos e da Otan, acusou os russos de planejarem uma invasão, quase oito anos depois de o governo Putin anexar a península da Crimeia.

Enquanto a crise ucraniana crescia, o governo do Cazaquistão, vizinho e aliado da Rússia, enfrentou uma insurgência nas ruas após um súbito aumento no preço dos combustíveis.

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Nos primeiros dias de 2022, manifestantes chegaram a tomar conta do aeroporto de Almaty, a maior cidade do país, levando o presidente Kasim-Yomart Tokayev a solicitar ajuda da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), aliança regional de defesa liderada pela Rússia. Com o envio de cerca de 2.500 soldados da organização, os russos contribuíram para a estabilização dos protestos, pelo menos por enquanto.

Apesar do crescimento da violência no Cazaquistão em paralelo à tensão na Ucrânia, especialistas observam a crise como uma oportunidade para Vladimir Putin de enviar um recado sobre a força da Rússia na região – sem que, para isso, precise atravessar novamente a fronteira com a Ucrânia.

Além disso, o Kremlin também pode fazer algum tipo de acordo com a Otan e os EUA que atenda às expectativas de que suas fronteiras estejam mais protegidas da aliança ocidental. O governo Putin ainda busca evitar um pacote de sanções graves que atingiriam em cheio a economia do país.

CNN ouviu os especialistas Leonardo Paz, cientista político do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV); Alexandre Hage, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); e Vicente Ferraro, mestre em Ciência Política pela Higher School of Economics de Moscou e membro do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo, para entender os possíveis desdobramentos dessas negociações e o peso, para o Brasil, de uma eventual visita oficial de Jair Bolsonaro a Moscou, já programada, durante esse período tenso na região.

Regiões declaram independência da Ucrânia

O afastamento entre Rússia e Ucrânia, ex-repúblicas da União Soviética, se intensificou entre 2013 e 2014, com a queda do presidente ucraniano Viktor Yanukovych e a ascensão de um grupo favorável a uma eventual entrada do país na União Europeia e na Otan.

O grande conflito territorial, hoje, é sobre as regiões de Lugansk e Donetsk, com grande presença de russos. Ambas declararam sua independência da Ucrânia após os protestos em 2014 – ao contrário da Crimeia, no entanto, não houve invasão de tropas russas para garantir a separação das regiões.

Segundo a Ucrânia, no entanto, o acordo de cessar-fogo assinado em Minsk em 2015 vem sendo constantemente desrespeitado pelos russos. O Kremlin, por sua vez, nega que esteja planejando uma invasão no leste e protesta contra a parceria da Otan com a Ucrânia – apesar de o país não ser um membro da organização, recebe treinamentos, armamentos e apoio da aliança ocidental.

Segundo o professor Alexandre Hage, os russos consideram, historicamente, a Ucrânia não como um Estado nacional, soberano, e sim como uma “fronteira próxima”. “Eles não entendem o conceito de fronteira como nós entendemos. Para eles, não se trata exatamente de outro país, mas sim de um território que é historicamente ligado à Rússia. Não é maldade ou ganância; é um elemento que está incorporado há séculos na cultura russa”, explica Hage.

A situação começou a se deteriorar no fim da década de 1990, quando a Otan passou a abrigar diversos países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia, antiga aliança militar liderada pela União Soviética. Uma eventual entrada da Ucrânia fez crescer o protesto de Moscou com relação ao avanço ocidental.

“A Rússia não considera que a sua segurança começa na Europa Oriental, e não em sua fronteira no leste. Toda manifestação norte-americana, e da Otan, de estender as forças militares nesse território é vista pelos russos como uma agressão”, diz Alexandre Hage. CNN

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